Como ''Crepúsculo'' destruiu o feminismo



            Algumas semanas atrás, navegando pelo facebook, eu comentei em uma página que Crepúsculo era o livro mais machista que já tinha lido e que me surpreendia que houvesse mulheres que o aceitassem. Algumas fãs da série na página riram de meu comentário. Pensei nelas por vários dias, no que aquilo significava, e decidi escrever esse texto.
            “Edward Cullen é perfeito”, “Edward Cullen é lindo”, “Quero me casar com Edward Cullen”, “Team Edward”. Essas afirmações, ditas com tanta convicção por mulheres de todas as faixas etárias, me chocam.
            Antes de qualquer coisa, eu li o primeiro livro da saga Crepúsculo há muito tempo, nas vésperas do lançamento do primeiro filme, quando a febre ainda não tinha se espalhado como uma pandemia. Antes que se tornasse cult ter um ódio mortal pela série. Não passei do primeiro livro. Como mulher, considerei os dois personagens ali retratados ofensivos e optei por não continuar a leitura dos volumes posteriores. Portanto, fiz algumas pesquisas sobre os demais livros para pode escrever este texto.
            (É válido ressaltar: não estou aqui para falar que a autora escreve mal, que a história é ruim ou o que for, isso não é uma resenha crítica do livro, mas de um aspecto da obra).
            Vamos analisar os personagens:
            Bella Swan: uma adolescente reservada, tímida, que não é bonita e não tem qualquer atrativo. Ela é frágil e está sempre sofrendo acidentes e se machucando. Como a maioria das meninas de sua idade – como a maioria das mulheres que trafegam por esse tipo de leitura, – Bella é cheia de inseguranças (e aqui não há nenhum preconceito com as leitoras da saga, todas as pessoas têm suas inseguranças e a adolescência é um período complicado de descobertas. Os temores de Bella são naturais). Bella mora com o pai, que trabalha o dia todo. O pai dela é solteiro, mas a mãe após o divórcio casou-se outra vez, porque todos nós sabemos que mulheres adultas precisam estar casadas.
            Edward Cullen: é o garoto mais bonito da escola. Ele é rico, é atlético, é popular, e é o garoto mais bonito da escola. Eu já disse que ele é o garoto mais bonito da escola? Bem, ele é. E é basicamente por isso que Bella se apaixona por ele, porque ele é o garoto mais bonito da escola. Edward é misterioso, carrancudo, e a definição perfeita de um macho-alfa. Ele é forte como um touro, é ágil, é assustador, e Bella não consegue dizer não para ele.
            Bella e Edward se apaixonam instantaneamente. Num cruzar de olhares, os dois estão unidos para sempre por uma força sobrenatural que fundiu seus corpos em um só. Bella – frágil, tímida, doméstica – não consegue tirar ele da cabeça – seguro, bonito, macho-alfa.
            Existem inúmeras maneiras de se escrever histórias para adolescentes inseguras, mas Stephanie Meyer escolheu a pior delas: ela diz, simplesmente, que tudo o que uma mulher precisa é de um homem. Algo chocante para se contar para uma adolescente que em poucos anos será uma mulher do século XXI: livre e autossuficiente. Tudo o que Bella não é, é livre.
            Agora, vamos a Edward. Eu tenho medo das meninas que o consideram o modelo de um homem ideal – romântico, príncipe, perfeito. Em minha leitura do livro eu não simpatizei com Edward, e muitas vezes tive vontade de abandonar o livro por estar sendo forçada a crer que Bella, em uma sociedade como a nossa, via aquele sujeito como um homem perfeito. Edward é arrogante, é possessivo, é machista. Ele não fala com Bella, ele lhe dá ordens. Até mesmo o amor dos dois parece ser imposto: o galã vigia a mocinha enquanto ela dorme; um nível de obsessão assustadora. Aquilo não é amor, aquilo é doença.
            Esse trecho do livro fala tudo sobre a figura dominadora de Edward:

"Agora estávamos perto do estacionamento. Virei para a esquerda, para minha picape. Algo pegou meu casaco, puxando-me para trás.
  - Aonde pensa que vai? - perguntou ele, furioso. Agarrava um pedaço do meu casaco.
 Fiquei confusa.
             - Vou pra casa.
  - Não me ouviu prometer que levaria você para casa com segurança? Acha que vou deixar você dirigir nas suas condições? - A voz dele ainda era indignada.
             - Que condições? E a minha picape? - reclamei.
            - Vou pedir a Alice para levar depois da aula. - Ele agora me rebocava para o carro dele, puxando-me pelo casaco. Era o que eu podia fazer para não cair de costas. Ele provavelmente me arrastaria de qualquer maneira, se eu caísse.
 - Solta! - insisti. Ele me ignorou. Cambaleei de lado pela calçada molhada até que chegamos ao Volvo. Depois ele finalmente me libertou e eu tropecei para a porta do carona.
 - Você é tão mandão! - eu rosnei.
            - Está aberta - foi só o que ele respondeu. Ele assumiu a direção.
            - Sou perfeitamente capaz de dirigir pra casa! - Fiquei parada ao lado do carro, fumegando. Agora chovia forte e eu não havia posto o capuz, então meu cabelo estava pingando nas minhas costas.
            Ele baixou o vidro elétrico e se inclinou pra mim sobre o assento.
            - Entre, Bella.
            Não respondi. Estava calculando mentalmente minhas chances de chegar à picape antes que ele pudesse me alcançar. Tinha que admitir que não eram boas.
            - Vou arrastar você de volta - ameaçou ele, adivinhando meus planos.
            Tentei manter a maior dignidade que pude ao entrar no carro dele."

            Em uma sociedade em que o homem é o pilar da família e a mulher tem que lhe obedecer cegamente, talvez Edward Cullen fosse um homem ideal. Entre mulheres livres, mulheres autossuficientes, um Edward Cullen é aquilo que ela mais deve repudiar: um homem que quer dominá-la. Para aquelas que acham que ele faz isso por amor, faz isso porque é fofo, faz isso porque ele se preocupa com ela, vocês estão erradas. Ele faz isso porque a toma como sua propriedade, e isso não é amor. Obsessão não deve jamais ser confundida com amor. O cara que te joga dentro de seu carro quando você diz “não” veementemente é o mesmo que danifica o seu veículo para que você não vá ver outro homem. Oh, é mesmo, Edward também faz isso. Ele até mesmo obriga Bella a comer (lembro que foi nessa cena que percebi o quanto odiava aquela representação nojenta de um relacionamento amoroso).
            E Bella, quieta, obedece. Ela está perdidamente apaixonada por ele, e não importa o que ele faça, ela sabe que ele a ama e sempre o escolherá acima de tudo. Acima de sua própria vida. Bella prefere a morte a viver sem Edward.
            Indo além, eu diria que até o fato de Bella ser pobre e Edward rico é uma analogia ao papel submisso da mulher.
            Pense rápido: quantas mulheres em Crepúsculo são solteiras e não estão a procura de um namorado? Não conseguiu responder essa pergunta? É porque não há nenhuma. Stephanie Meyer deixa claro: uma mulher precisa de um homem. Nós só pensamos em homem, nós respiramos por homens, nós queremos homens. E quem se importa em ter planos de vida quando se tem o amor de sua vida para lhe salvar repetitivas vezes? O que há de errado em tentar o suicídio para chamar a atenção dele? Afinal, é só ele que importa.
            Vocês já pararam para analisar os pôsteres da saga? Em todos eles, Bella é o objeto frágil que deve ser protegido pelos homens de sua vida.
  

O conceito de princesa em apuros é tão errado para o mundo em que vivemos, a sociedade igualitária que tentamos formar, que até a Disney inovou e criou uma princesa inteiramente formada nas bases do feminismo (e por feminismo eu quero dizer igualdade entre os gêneros, qualquer coisa que passe disso é machismo ou femismo. Essa onda de mulheres contra o feminismo também é algo que me assusta, mas tento acreditar que seja devido a confusão que se faz entre feminismo, feminismo militante, e femismo).

A princesa Merida (Valente), orgulhosa de seus cabelos rebeldes, luta contra ter que escolher um marido e ter que aprender a ser princesa recatada.
            Toda mulher moderna devia se sentir pessoalmente ofendida ao ler ou assistir Crepúsculo. O mais chocante de tudo é que a história foi escrita de uma mulher para mulheres. Se essa é a fórmula do romance, então sinto dizer que o romance precisa mudar. Meyer mexe com algo delicado ao mostrar para mulheres em formação que elas devem ser submissas e procurar o seu príncipe encantado.
            Para aquelas garotas que riram de mim quando disse que Crepúsculo era machista, e para aquelas que gritam com veemência “Team Edward” ou “Team Jacob”, eu espero, sinceramente, que nunca encontrem os seus “príncipes”.

Renata Nolasco.

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18 Comentários

  1. Eu nunca tinha visto Crepúsculo com esses olhos! Já tinha reparado que a "moral" era a importância de um namorado na vida de uma mulher (hahaha), já que a Bella só é feliz no livro quandoo Edward está perto e parece uma zumbi idiota quando ele não está. Mas lendo seu texto, consegui perceber porque falam que "Cinquenta tons de cinza" é baseado em "Crepúsculo"! Acho que a reação que você teve quando leu o livro de Stephenie Meyer foi a mesma que eu tive quando li o da LS James. Só que, para mim, o se Grey é bem mais grotesco (não sei como as mulheres ficam falando que querem um "Sr Grey" para elas!). Tenho certeza que o dinheiro do cara que é rico contribui muito para elas ficar fascinadas por caras machistas do jeito que ficam!

  2. Michelly says:

    É admirável a sua visão a respeito do livro, nunca tinha percebido isso.

  3. Não li Cinquenta Tons de Cinza, e não é algo que pretendo ler - já começando por ter nascido de uma fanfic de Crepúsculo. Mas posso imaginar, pelo que ouvi falar, que a situação seja mais ou menos essa mesmo. Não é somente chocante, é também triste que mulheres compactuem com esse tipo de imagem sendo vendida por aí. Pior, que elas comprem e adorem. Infelizmente a cultura machista também está enraizada nas próprias mulheres, é algo que ambos os sexos devem combater.

  4. Acredito que poucas devem perceber, por isso o livro faz tanto sucesso entre as mulheres. Temos que ficar alerta para essas "pequenas coisas".

  5. Bom se você acha o Edward possessivo deveria ver o SR. Grey de 50 Tons. Confesso que já havia reparado este lado da história, e que me recusaria a muitas coisas, principalmente a casar-me com apenas 19 anos, mas não me incomodo, para mim é simplesmente um livro.

    Beijos.

    Rafa
    Blog Melody
    http://rafaacarvalho.blogspot.com.br/

  6. Livros são construtores de caráter. Dizer o contrário disso é desconstruir tudo o que significa ler um livro. É claro que não é o único fator, mas é um fator, e é válido ressaltar que Crepúsculo é lido por garotas jovens, facilmente influenciáveis e impressionáveis. E níveis de possessividade não descaracterizam a possessividade. Possessivo ou super-possessivo, é ruim de todo jeito.

  7. Apesar de já ter lido A série inteira, nunca tinha analisado o livro desta maneira... Apos ter lido este texto, confesso que concordo plenamente contigo.
    Parabens pelo texto...

  8. _Litinha_ says:

    Até hoje não sei apoio ou não o feminismo... kkkk
    Sou contra a ideia de que devemos ficar no nosso canto, cozinhando e limpando a casa enquanto que o marido traz a caça e nos domina. Fui criada feminista por causa de minha mãe solteira, e só menciono que sou machista quando me agrada - somente quando não quero pegar as compras do carro e boto meu irmão para fazer esse trabalho para mim.
    Já tentei ler Crepúsculo cinco vezes e não consegui. Logo no começo, achei um romance de mulherzinha, muito água com açúcar para mim. Portanto, por não ter lido muito do livro, acho que não estou em posição em concordar ou discordar de você.
    O livro 50 Tons de Cinza também segue no mesmo sentido. Desisti logo no começo, quando a protagonista segue descrevendo como todo mundo é lindo e maravilhoso, e ela se vê retorcida no espelho. Desisti, logo depois dela passar um paragrafo inteiro falando do cabelo.
    No entanto, admito que você não deveria passar por essa tortura mental mais uma vez e ler 50 Tons de Cinza. Percebe-se o mesmo pensamento de machismo, só não consigo dizer em que parte do livro.
    Achei essa sinopse de Crepúsculo a melhor de todas até agora. Eu achei difícil de encontrar alguém que não veja Edward como o príncipe encantado. Até minha mãe caiu sob os encantos do vampiro possessivo. kkkk

  9. Anônimo says:

    Não li 50 tons de cinza, mais li o último dos livros de crepúsculo e assisti a todos os filmes. Sinceramente nunca achei um bom livro, não que Meyer não seja boa escritora, mais realmente a moral de crepúsculo é "viva para seu homem". acho isso um absurdo. Prefiro mil vezes a trilogia de Jogos Vorazes, em que Katniss não se sujeita a capital e decide lutar contra todos (mesmo em algumas partes se sujeitando a alguns mandados), ela luta vai atrás. Diferentemente de crepúsculo, onde Bella apenas se submete a Edward. Desafio a alguém a encontrar em alguma parte do livro, um mísero momento em que o feminismo apareça. Talvez alguns digam "o último livro, Bella tem a decisão de se tornar vampira e ter a criança". Errado! Mesmo com toda essa situação, Edward é quem manda em Bella: no que ela veste, come, os esforços que faz, quem ela tem a sua volta, etc. Crepúsculo é uma ofensa a todas as mulheres e é absurdo o modo como todas as fãs de crepúsculo se submetem a esse tipo de leitura

    Jeniffer Karine

  10. Acho que o importante aqui é você perceber que isso é apenas um livro e não deixar se influenciar, né? Você pode ler e perceber que, para a Bella, aquele tipo de homem tá ótimo, mas não é porque ela gosta que você também vai querer um "Edward" ou um "Sr. Grey" na sua vida!

  11. Ótimo texto, concordo com vc, também já tentei ler o livro e não consegui, e por isso mesmo também nunca peguei 50 tons de cinza pra ler rs

  12. Anônimo says:

    Tbm nunca li por esse lado! É assustador perceber isso! Parabéns pelo texto!

  13. Amanda says:

    Quando eu li crepusculo pela primeira vez eu tinha 13 anos e achei o maximo, eu amava o Edward, mas agora com 18 eu vejo o que a autora mostrou pro mundo, numa sociedade que busca a igualdade entre homens e mulheres ela tenta nos fazer voltar as antigas. É muito bom depois que você cresce passar a ver com outros olhos aquilo que um dia pode te influenciar. Adorei a sua opinião, parabens :D

  14. Anônimo says:

    Sua ótica é maravilhosa... retrata bem o que sentimos quando nos vemos tão equivocadamente "representadas" nessa história. Um excelente perspectiva! Parabéns!

  15. Anônimo says:

    Sou homem, tenho mais de 40, na minha infência as mulheres eram muito mais dependentes dos seus companheiros que hoje.
    Porém fico muito feliz que existam pessoas neste mundo que pensam de verdade sobre estas histórias ridículas que atraem cada vez mais milhares de fãs. Estou muito preocupado com tudo que nos cerca. Não aonde vamos parar. Parabéns pelo comentário e também pelo apoio que teve das pessoas acima.
    lobogato_2000@hotmail.com

  16. Como um homem(e ser humano, antes de tudo), eu concordo com você. Eu lembro que quando eu estava no ensino médio, eu perdi a conta de quantas meninas diziam: "Vou esperar um príncipe encantado, igual ao Edward".
    Agora, eu abro uma ressalva. Não gostei da história de Crepusculo, mas, achei a Stephanie Meyer uma boa autora. Ela é formada em Literatura Inglesa, e se deu o trabalho de criar todo um, "universo próprio" para a sua história crescer. Ela acertou em cheio, as inseguranças das adolescentes. Lembro de tomar um susto, quando a minha mãe disse, que a sua amiga de 42 ANOS, tinha adorado os livros!

  17. É verdade, Amanda! Lembro de me sentir assim com Dawson's Creek. Quando assisti com 12 anos, achava a Jen uma vadia, quando assisti de novo, com 16, percebi que ela era a heroína da história.

  18. mi says:

    aff sai fora ooh

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